Moto Legal

10 de janeiro de 2016

Há exatos 19 anos, nos deixava Padre Cláudio

Padre Cláudio Bergamaschi um dos maiores homens que São Mateus já conheceu
A exatamente 19 anos, ou seja, em 10 de janeiro de 1997, morria um dos maiores homens que a comunidade de São Mateus já conheceu, Padre Cláudio, que viveu quase 20 anos na paróquia e cidade de São Mateus do Maranhão.
O padre Cláudio Bergamaschi, estava voltando de um retiro em Goiânia. Alegre, desceu do avião no aeroporto da capital São Luis e junto com a Ir. Lucineth Cordeiro, então coordenadora do nono Intereclesial das CEB's, tomou o ônibus para, naquela mesma noite, voltar para a sua casa em São Mateus.
Uma pista molhada, irregular, estreita e cheia de curvas. Um ônibus com pneus já há muito tempo impróprios para aguentar as longas viagens. Uma fração de segundo. A colisão com um caminhão foi violenta. Assim mais dois nomes foram acrescentados na longa lista de vítimas de acidentes de transito na BR-135, os do Padre Cláudio e do Edilson, um estudante de 13 anos que retornava para sua casa em Pedreiras para tirar férias.
A notícia da morte de Padre Cláudio e dos ferimentos sofridos por Lucineth, deixaram muita gente abalada. São Mateus viveu dias de imensa dor, da Itália vieram a irmã de Cláudio, Carla Bergamaschi e sua filha.
O velório durou três dias, durante o funeral era grande o desespero, algumas pessoas desmaiaram e tiveram que ser socorrida por uma equipe médica que foi deslocada para dar plantão em frente ao Salão paroquial. No dia do enterro, a Igreja era pequena demais. De muitos cantos do Brasil, as comunidades enviaram mensagens de solidariedade.
Padre Cláudio ao lado de Ir. Lucineth Cordeiro e uma jovem mãe da zona rural de São Mateus
Conheça um pouco mais sobre sua tragetória
O trabalho junto ao povo sem terra e a formação de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) foram duas coisas que ninguém jamais conseguiu tirar da cabeça - e do coração - do missionário italiano Cláudio Bergamaschi, 59 anos .
Um dos fundadores da Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Maranhão nos tempos difíceis da ditadura militar, Cláudio faleceu em janeiro de 1997, vítima de um acidente automobilístico.
Deixou saudades, sobretudo no povo das comunidades de São Mateus, onde trabalhou durante vinte anos. Ficou também desfalcada a equipe de preparação ao Nono Encontro Intereclesial de CEBs - que se realizou em julho daquele mesmo ano em São Luís, da qual Cláudio participaria.

AMÉRICA LATINA CHAMA
Ordenado em 1966, esse italiano de Mantova vive um período de profundas transformações na Igreja, estimuladas pelo Concílio Vaticano II (1962-65). Na paróquia onde trabalha, incentiva os leigos a assumirem a dianteira nas atividades pastorais.
Inspira-se na experiência de vida do italiano Lorenzo Milani e do francês Charles de Foucauld para viver uma espiritualidade encarnada e atuar de modo simples e anônimo no meio dos excluídos.
Em 1970, atraído pelas idéias e opções proféticas que fervilham na Igreja latino-americana da época, deixa a terra natal para trabalhar no Brasil. Identifica-se com a opção pelos pobres e com o ideal de uma Igreja mais perto do povo.
É com essa Igreja que Cláudio decide partilhar a vida até a morte. De espírito contemplativo, passa horas e dias num silêncio calmo e sereno em companhia da bíblia. Ao mesmo tempo, é um homem de ação.
No Maranhão, colabora com o bispo Hélio Campos, que se aventurava nas primeiras experiências de CEBs na diocese de Viana.
Cláudio vê nele um mestre. Com ele aprende a mergulhar na vida do povo empobrecido. À frente da paróquia de São Vicente Férrer, não mede esforços na formação e acompanhamento das comunidades.
Sete anos depois, com a morte do amigo e a chegada do bispo substituto - um ferrenho opositor da pastoral de libertação -, Cláudio deixa a diocese. É acolhido pelo bispo de Coroatá, no mesmo Estado, onde assume a paróquia de São Mateus.

CONSCIÊNCIA E CIDADANIA
Cláudio prioriza com entusiasmo a formação de animadores de comunidades e de movimentos populares. Íntimo com a bíblia e conhecedor das formas de se trabalhar com o povo, ajuda na formação de lideranças em outras dioceses maranhenses.
Para Cláudio, conscientização é fundamental na construção da cidadania. Por isso, junta-se com amigos que pensam como ele para fundar a Escola Diocesana de Formação Política.
O drama da terra o incomoda e desafia. Daí a criação da CPT do Maranhão, em 1978, para acompanhar a luta dos lavradores ameaçados de despejo e morte por latifundiários e grileiros.
Onde havia uma área em conflito, lá estava Cláudio, defendendo os lavradores, acompanhando processos na Justiça, consolando viúvas e órfãos.
O seu nome logo passa a figurar na lista dos "cabras marcados para morrer", ao lado dos nomes de sindicalistas e animadores de comunidades.

PRESENTE DE MÃE
Em 1986, perde o amigo e colaborador padre Maurício Maraglio, morto em circunstâncias até hoje não esclarecidas. Cláudio não alimenta dúvidas: o amigo foi vítima da vingança dos latifundiários.
Perde também mais dois companheiros de luta: Alonso e Pedro, líderes de comunidade assassinados por pistoleiros a mando de grileiros da região.
Cláudio agora repousa na igreja de São Mateus, ao lado do amigo e conterrâneo Maurício. A mãe quis que o filho ficasse no meio do povo que tanto amou.
A mesma atitude da mãe de Maurício. Ela um dia revelou a Cláudio que o corpo do filho devia permanecer onde tinha estado o seu coração.

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