Obras Mais Asfalto

13 de abril de 2014

Chatice não tem cura!

Artigo publicado pelo escritor e membro da Academia Maranhense de Letras José Ewerton* Neto no Jornal Estado do Maranhão no Caderno Alternativo deste sábado.

Esse mundo anda meio chato faz tempo. São chatos o imposto de renda, o patriotismo oportunista de Galvão Bueno e Felipão,  o aquecimento global, as manifestações e as barreiras eletrônicas. Oscar Wilde, o genial escritor inglês dizia que não existe pecado maior que o tédio, mas não gostaria de arrolar a chatice ao tédio. O tédio é parente da melancolia que por sua vez é filha da tristeza, a que se deve a maioria  das obras de arte. Que o tédio fique em paz, desta vez.
Estamos falando da chatice mesmo, algo que a sociedade moderna tornou imperativa, e cruel, porque se sobrepõe à liberdade, pelo menos,  de se pensar. É  tão chato um vírus em seu computador como uma secretária eletrônica lhe atendendo. A felicidade obrigatória dos livros de autoajuda é tão chata quanto o strip-tease sentimental do facebook e a chatice de ser obrigado a votar é tão chata quanto a corrupção que vem  depois. Mas a chatice só ganha contornos de algo avassalador quando o que já é chato em si mesmo evolui para tornar-se ainda mais chato. Como por  exemplo: durante muito se pensava que não podia existir algo tão chato quanto música sertaneja, mas logo surgiu a música sertaneja universitária o que  faz com que se tenha saudade da primeira – dá pra acreditar? Quando se pensava que não poderia haver alguém tão chato quanto Pedro Bial eis que o colocaram para dirigir o programa mais chato que alguém poderia inventar, o tal Big-Brother. Esse é, pois, o drama do século: a modernidade tornou-se especialista no poder de aprimorar a chatice.
Donde vem a primeira tentativa de definir o que seja a chatice. Chatice seria  a tendência que têm as aporrinhações irremediáveis de se transformarem, naturalmente, em torturas. Mas, peraí... A isso não se deveria chamar, ao invés, chatice crônica? Sim, porque, por definição, chatice crônica deveria  ser uma coisa e chatice outra. E agora? Estamos vendo que o pior da chatice é justamente isso: não existem termos capazes de classificar exatamente o que seja ela.
E não seriam todas as definições da chatice tão chatas porque necessariamente insuficientes?  Fernando Sabino o escritor mineiro tinha uma boa interpretação do que é ser enjoado quando dizia: “Chato é aquele que te rouba a solidão sem te fazer companhia.” Montagne, o filósofo, dizia que toda infelicidade do homem principia em não conseguir ficar sozinho em seu próprio quarto. Alguns dirão que Montagne era um chato. Claro que Montagne não era chato, muito menos o que fazia no quarto (considerando que não havia revista Playboy nesse tempo, e nem pornografias via celulares).
Outras definições surgem, de repente, nessa vã  tentativa de resumir o chato e a chatice em uma frase. Eis algumas delas:  
                     
1.“O chato é um fingidor. Finge tão completamente que consegue  tornar-se um chato ainda maior do que realmente é.”  Parodiando Fernando Pessoa.
2.“A vida, às vezes parece chata, mas a outra opção é muito pior.”L.F.Veríssimo
3. “Certos  escritores de autoajuda não são mais chatos não só porque o dia tem só vinte e quatro horas, mas porque o alfabeto só tem 23 letras”.                     
4. “Os chatos  parece que não morrem nunca. É fácil explicar: Deus
não os quer no céu,  nem o diabo no inferno.”
5.“Somos um subproduto da chatice. Se a eternidade não fosse tão chata Deus não teria inventado o Big-Bang, por falta do que fazer.
6. “A única vantagem de um sujeito ser escritor é que mesmo sendo um chato a vida inteira, pode se tornar, dependendo do que escreveu, um sujeito agradável depois dela”.
7. “Nada a ver com a vida em si. O chato de se viver é que por mais que se tente fazer tudo certo as coisas acabam sempre irremediavelmente dando erradas. No final.”

A considerar que, pelo menos uma das frases acima, seja merecedora de crédito  no árduo intuito de se chegar perto do que seja uma boa definição para o chato ou a chatice, já temos um bom começo para uma possível  Teoria Universal da Chatice. Se o leitor agüentou o cronista até aqui, de uma coisa pode ficar certo: a crônica até que não foi tão chata assim.  E, por favor, cuidado para não confundir chatice crônica com crônica chata.

Obrigado!

José Ewerton Neto é natural de Guimarães, MA. Engenheiro de formação, sua estreia na literatura deu-se com o livro de poesias Estátua da noite, publicado na adolescência. A partir daí, publicou uma série de livros, todos premiados em concursos literários: O ofício de matar (novela), Cidade aritmética (poesia); A ânsia do prazer (novela); A morte dos Mamonas Assassinas e outros contos e a novela O menino que via o além, ora reeditada pela Escrituras Editora. Membro da Academia Maranhense de Letras ocupa a cadeira de nº 11.

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