Moto Legal

4 de setembro de 2011

Uma vergonha muito inconveniente

Artigo publicado na seção ontem dia 3/09 no Caderno Alternativo, jornal O estado do Maranhão.


Acompanhe o blog SAO MATEUS EM OFF também pelo Facebook.
Jornal O estado de São Paulo, edição de 13 de Agosto de 2011. Algumas notícias de primeira página:
                        “Juíza é assassinada no Rio, outros 69 estão ameaçados.”
                        “Pressionada, Itália anuncia corte de gastos.”
                        “Fotos de presos pela PF geram crise”
                        “O universitário do Maranhão é o que lê menos”. 

Peraí, O UNIVERSITÁRIO DO MARANHÃO É O QUE LÊ MENOS?


De fato, o jornal, em reportagem interna, lamentava que a pesquisa em várias universidades brasileiras denunciasse aquilo que já se desconfiava: o universitário brasileiro, de um modo geral lê muito pouco, não só comparado a países de cultura tradicional como a França e Alemanha como – para falarmos de países vizinhos – Chile e Argentina. O que não se sabia é que, entre eles, o pior é o maranhense. Só para termos uma idéia enquanto 23 % de universitários gaúchos lêem dez livros, em média por ano, o mesmo porcentual maranhense não chega a sequer um livro. Repito: 23% DOS UNIVERSITÁRIOS MARANHENSES NÃO CHEGAM A LER SEQUER UM LIVRO POR ANO.

Se essa constatação, publicada  num dos jornais de maior circulação do país, e por aqui reproduzida,  chegasse a nos envergonhar, por que então nenhuma autoridade se manifestou a respeito? E, quando estou falando de autoridades estou falando também, também de interessados próximos: reitores, professores, intelectuais, secretários de estado e... Os  próprios estudantes.
Talvez porque essa não passe de mais uma vergonha inconveniente. E bote inconveniente nisso!
É preferível  falar no sucesso do Geia (muito justamente, aliás); no reconhecimento (finalmente) do bumba-boi com patrimônio cultural do Brasil; nos projetos para comemoração do quarto centenário de São Luis e , nunca , na verdade acachapante de que NINGUÉM QUER MAIS SABER DE LER NUMA CIDADE QUE SE INTITULA ATENAS BRASILEIRA . Principalmente, seus universitários.

Mas, por que a pouca leitura significaria uma vergonha? Aí é que está, fosse eu um jovem universitário, doido para passar no vestibular do Brasil ou ávido para curtir shows de Sorocaba na Expoema,  ficaria pensando toda vez que um sujeito viesse pela enésima vez falar nesse assunto “abominável” da necessidade de leitura “Por que será que essa turma não para de encher o saco? Puxa vida, tenho muito mais o que fazer do que ficar meia hora penando em cima das páginas de um livro.” E  reconheço que,  dentro de sua lógica de bobo feliz com sua parvoíce, ele teria razão.
Pois só pode avaliar a fortuna trazida por um livro quem habituou - se, desde cedo a ler. Como dizia um escritor francês, jamais coube ou caberá ao ser humano ser proprietário de sua morte genética, mas de sua morte intelectual sim, e nossa raça se aprimorou em se suicidar da melhor forma. O universitário maranhense, ao que tudo indica, está sabendo muito bem escolher a sua: é também entre todos os universitários brasileiros o que menos freqüenta bibliotecas.

Ora, se estamos lidando com mortos intelectuais prematuros de nada  vale evocar frases como as de que “ A literatura não faz alguém mais ou menos feliz, mais ou menos rico, mas é a principal estimuladora da única coisa que diferencia um animal do outro: a reflexão, ou seja, aquilo que o distingue.” O que soa desconcertante - nesse esforço que todo ser humano deveria ter para distinguir-se de outros animais - tanto ou mais que o desapego dos universitários maranhenses pelo instrumento mais rico que possuem para que possam se tornar melhores profissionais,  é a indiferença das autoridades a respeito.
Claro, por que tocar na ferida de mais uma vergonha inconveniente?

Nenhum comentário: