Moto Legal

3 de julho de 2011

Rumos da PEDINTOLOGIA


Por José Ewerton Neto
ewerton.neto@hotmail.com


Por muito tempo ser pedinte nunca foi profissão e, muito menos, a Pedintologia uma ciência. Mas, nestes tempos de pós-modernidade, profissões de todo tipo estão surgindo a cada instante, as mais curiosas e indecifráveis. Semana passada, a revista Veja anunciou mais de vinte, entre as quais as de cirurgião robótico e gerente de doenças crônicas (?).  Nada de surpreender que, segundo os jornais, o poder público de São Luis haja instituído, oficialmente, a profissão de pedinte.
Imediatamente, os estudiosos e pesquisadores iniciaram o embrião do que se constitui a PEDINTOLOGIA. As bases dessa nova ciência se baseiam em um principio fundamental chamado, princípio de João Encostado (ex-guardador de carro e hoje guardador da chave de sua própria Hilux, comprada à vista).
“No Brasil para alguém se dar bem ou bem precisa roubar ou bem pedir.”
Como esse postulado nunca foi contestado na comunidade científica, logo surgiu o corolário.
“Todo brasileiro honesto que, por princípio, não sabe pedir ou roubar é completamente inviável neste país.”
Para não nos estendermos mais numa ciência tão extensa quanto complexa, eis um breve resumo das páginas iniciais do documento histórico.

1. Tudo começou quando o “futuro profissional” apareceu pedindo dinheiro, como qualquer mendigo, com a diferença de que fingia estar guardando carros. (Aliás, pedir dinheiro é a única coisa que ele faz, até hoje). Os veículos não eram tantos, de forma que ninguém duvidava de que se tratava de mendicância pura. Lembre-se que, nessa época,  o “futuro profissional”  agradecia pelo que recebia , não exigia nem xingava, a altos brados, como hoje.  
                        Durante muito tempo, a relação do benfeitor para com o pedinte, era na base da incredulidade e desconfiança, por não conceber que um sujeito novo, e com saúde, não procurasse aprender um ofício digno, para ganhar seu dinheiro trabalhando de verdade. O certo é que, com o dinheiro fácil e o progressivo aumento do número de carros os  flanelinhas proliferaram mais do que botox em rosto de perua, ou de remédio para emagrecer em farmácia de rico.
Foi então que os políticos  resolveram entrar na história, sempre de olho nos milhares de votos dos pedintes, baseado no postulado de Zé da Vaga ( ex- guardador de carro e futuro  candidato a vereador ) :
“Mais vale um  voto na mão,  que dois ociosos trabalhando” postulado cujo complemento científico é concludente: “ Desde que seja outro quem pague.”

2. E foi assim que pedinte virou profissão e a iniciativa maranhense veio coroar uma combinação salutar para as duas partes.  Os governantes insinuam praticar um reparo social, os guardadores fingem que trabalham, e os contribuintes pagam a conta. O papel de bobo fica para o cidadão, tendo que aceitar um serviço, supostamente de segurança, que em qualquer outro lugar do mundo é exercido pela polícia - já que, para isso, o cidadão  paga tanto imposto.
                O futuro da profissão já ultrapassou as expectativas de outras profissões mais desprezadas hoje em dia  como professores, pedreiros, marceneiros , encanadores etc já que as vantagens, para as partes envolvidas ( os “novos profissionais” e os administradores ) , são óbvias.  Eis algumas:
                        2.1. Vencimento. O pobre do  contribuinte é que  paga
2.2 Farda de trabalho. Não precisa, basta uma flanela suja.
2.3 Estudo. Aprende-se rapidamente. Uma das lições: “mulher paga mais caro, porque morre de medo”.
3.3 Escola. Não precisa bancos de escola, aprende-se nos bancos das praças.
3.4 Contrato de trabalho. De preferência, vocal: “Se você não me der mais de um realzinho, eu furo o pneu do teu carro!”. Com variações.

3. Quanto ao futuro da PEDINTOLOGIA ninguém tem dúvidas de que muitos estudos surgirão para abarcar toda a gama de implicações dessa nova realidade que surge. Como se sabe, neste país hoje todos pedem alguma coisa: corrupto pede voto e depois um habeas-corpus; prostituta pede para ir pro BBB e depois para trabalhar na Globo; gay pede para casar; perua pede um gigolô; periguete pede um velho rico  e criança pede para o pai não encher o saco.  As conseqüências são múltiplas, afinal de contas, o segundo princípio fundamental da Pedintologia tem base religiosa: “Pedir é melhor que roubar”. Cujo corolário, ainda do sábio Zé da Vaga acima citado, é profundo e definitivo.
                        “... Mas num país em que se rouba mais ainda do que se pede, todo pedido é quase roubo.”

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