Moto Legal

8 de novembro de 2009

Contos de Nelin Vieira

Caro leitor, todos os fins de semana, estou publicando os contos de Nelin Vieira (foto), saomateuense, jornalista, publicitário, contista, sindicalista, escreve na revista Almanarque do Jornal Pequeno e para este blog.
Este conto, é uma história real.



O HIDRAMIX (CONTINUAÇÃO)


Então, o cidadão Hidramix Hinfinito, meio revoltado, pergunta o seguinte:

- Que mundo é esse? Que vida é essa? Será que estamos aqui na terra só para sofrer? Será que o nosso criador (assim que refere-se à Deus) botou o homem no mundo apenas para brincar com ele? Para servir de cobaia ? E não lhe dá o direito de escolher pelo menos o seu próprio nome, O menino João de Deus da Silva, aos seis anos de idade, quando ia à missa com sua mãe, ficava observando atentamente o padre falar uma língua que lá no seu povoado ninguém entendia (era o latim ), e nos dias de batizado, uma “coisa” já lhe chamava atenção, que era o fato das crianças, que ao receberem o sacramento da igreja, passavam a ser chamados por nomes de santo, como: João, Pedro, Antonio, Mateus, Raimundo Nonato, José Ribamar e tantos outros.

O então funcionário público estadual, lotado no DER (Departamento de Estradas e Rodagens - extinto no governo da governadora Roseana Sarney) João de Deus da Silva (ainda não era o Hidramix Hinfinito), ao casar-se com dona Maria Deuzamar, em meados da década de 70 (namoraram menos de 24 horas – saíram da festa às cinco da manhã e à duas da tarde já estavam casados), fez um acordo com ela, de que os nomes dos seus filhos seriam escolhidos com a participação dos dois, porém, nada de meninos com nomes comuns e muito menos ficar ouvindo conselho de padres, freiras, sacristão, ou de quem quer que fosse, para homenagear os santos da Igreja Católica.

Até porque, segundo ele, se observarmos os grandes homens da humanidade, ninguém tem sobrenome de “Silva”, de “Sousa”, “Pereira” “Alves” na certidão de nascimento. E um bom exemplo disso, ressalta Hidramix, está aqui bem perto de nós, que são os nossos imperadores D. Pedro I; D. Pedro II e a princesa Isabel com seus pomposos sobrenomes Alcântara, Bragança, Bourbon etc.

Dessa união, nasceram sete filhos que foram registrados (sem nenhum problema com o Cartório) com os seguintes nomes: Jhaulismaflancyo Alves da Silva (homem), em 25/04/78, Jhardeikleicheck (mulher), 25/06/79; Jhoenamarkeissene (mulher), 16/07/81; Jhartehamkeulamar (mulher), 19/10/82; Jharquilankleybia (mulher), 19/07/84. No dia 07/03/86, nasce a criança, cujo nome tem 24 letras, chamado Jhaesneanflayquisheideix (homem) e no dia 08/12/87, vem ao mundo o último herdeiro do trono dos “Hahlmeixeixas” que é o Jhoeicileifranklinsheixe (homem).

Perguntado se estes nomes demoravam muito para serem criados, dona Deuzamar, ou melhor: dona “Hahlmeixeixas” respondeu que “às vezes duravam de quatro a cinco anos (para acerto de alguns detalhes) e que nesse intervalo, as crianças eram chamadas apenas de neném . Ela ressaltou também, que como os nomes dos filhos são um pouquinho grande, para facilitar na hora da chamada do almoço, eles costumavam pronunciar só as últimas sílabas, a exemplo deste último, Jhoeicileifranklinsheixe que atende carinhosamente pelo “apelido” de “Sheixe”.

O soldador Hidramix faz questão de dar algumas explicações a respeito da formação do seu novo nome (quando fala do que recebera no batismo, refere-se apenas como meu ex-nome). Fica bastante entusiasmado ao tratar desse assunto, e ressalta que “assim como existem pessoas que adoram criar passarinho, gostam de jogar bola, admiram briga de galo e outras gostam de beber... , onde cada qual tem a sua maneira de se distrair; a gostar daquilo que faz, ele se sente bem é criando nomes exóticos, coisas diferentes, como este: Sol-hidramix Riosraiosparaíso Diforças Hahlmeixexas Hinfinito”.

Hidramix fala com muito entusiasmo que “seria muito feliz pro resto da vida; morreria contente, se conseguisse registrar em sua certidão de nascimento este nome”. Disse que “vai trabalhar até o final sem desistir, para mudá-lo judicialmente, caso contrário, “irá morrer com esse trauma de ser chamado por um nome que ele não gosta, que ele não teve participação na escolha”. O empresário sãomateuense tem explicação para cada palavra do seu novo nome, que vem sendo “bolado” há uns dez anos, da seguinte forma:

Sol-hidramix Como ele já trabalha com solda - é soldador - e de todas as coisas da natureza, do universo, o que ele mais gosta, adora, é este astro dotado de luz própria, chamado Sol, por isso, pegou uma pequena “carona”, juntando-lhe à palavra hidramix (que foi inventada), formando assim: Sol-hidramix.

Rios-raios-paraíso: Veio da inspiração que tivera, quando, em 1979 foi “tirar” a carteira de motorista em Carolina (MA), e depois de tomar banho no Rio Tocantins (muito bonito, largo e bastante água), ao sair de dentro do rio, pegou uns raios de sol e em seguida deitou numa rede. Aí, algum tempo depois, estava pensando na vida, e o seu “sentido” foi direto no banho em Carolina, onde surgiu imediatamente o nome Riosraiosparaíso.(Rios é o Tocantins que ele banhou; raios são os raios do sol que estava se pondo e paraíso era exatamente a rede onde deitou depois do banho naquele lugar maravilhoso – um verdadeiro paraíso).

Diforças: No seu nome, ou melhor: no seu ex-nome que está no papel “no papel, a gente escreve o que quiser”, costuma dizer, tem a palavra Deus. E Deus pra ele é tudo: É força. É energia. É Vida..., e, pra não botar Deus, achou melhor substituí-lo por Diforças, que significa Deus.

Hahlmeixexas: Foi porque viu na televisão um sujeito assim meio maluco, fã de Raul Seixas, que pleiteava junto aos pais do cantor, o direito de usar o sobrenome “Seixas”, e num certo dia, estava deitado num banco de madeira, debaixo do seu pé de manga, dando uma volta ao passado, (só na sua mente) pensando na pobreza, no que sofreu trabalhando na roça... ficou martelando sua cabeça... aí pensou no Raul Seixas e em seguida, lembrou de “almeixa” (como chama a fruta ameixa), e imediatamente ele bolou a palavra Hahlmeixeixas (com “h” mesmo).

Hinfinito: Também com “h”, tem explicações bíblicas. Diz que não sabe bem qual é o versículo e nem o capítulo da Bíblia, onde fala que “Deus botou o homem na terra para ser seu semelhante, para ser infinito”, por isso, por achar que nós somos infinitos; que aqui na terra temos apenas uma missão a cumprir, ele fez a escolha do seu último nome com a palavra Hinfinito.

P.S: a continuação e término desta curiosa hitória você terá no próximo domingo dia 15/11.


Obs.: Esta matéria foi publicada no jornal O Estado do Maranhão; veiculada na TV Mirante, no jornal Hoje e no programa da Ana Maria Braga, ambos da TV Globo. Mereceu também, uma crônica do ex-presidente e membro da Academia Maranhense de Letras, em sua coluna semanal que é publicada na Folha de São Paulo e no jornal O Estado do Maranhão.

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