Obras Mais Asfalto

1 de novembro de 2009

Contos de Nelin Vieira

Caro leitor, todos os fins de semana, irei publicar os contos de Nelin Vieira (foto), nascido aqui em São Mateus do Maranhão, jornalista, publicitário, contista, sindicalista, escreve na revista Almanarque do Jornal Pequeno e agora para este blog, este que é um orgulho para nossa cidade.
Este conto, é uma história real.

O Hidramix

Sol-hidramix Riosraiosparaíso Diforças Hahlmeixexas Hinfinito. Este é o verdadeiro nome que o maranhense de Chapadinha, João de Deus da Silva, 48 anos, proprietário da Oficina e Borracharia “Hidramix”, localizada em São Mateus do Maranhão a 182 Km de São Luís, quer ver registrado em sua certidão de nascimento. Apesar de não ser uma pessoa “tão famosa” como gosta de dizer, preocupa-se bastante com o anonimato. Pois não ficaria contente - mesmo depois de morto - com a possibilidade, de quando anunciarem a sua morte, as pessoas da cidade ainda não conhecerem muito bem o nome do defunto.

Diz ainda que, se por acaso ele “desaparecesse” agora, poucas pessoas iriam saber quem é esse “João da Oficina”, vão apenas dizer: -Ah, é o João Velho, aquele tal de João soldador! E isso, de certa forma o incomoda bastante, principalmente, se considerarmos o tanto de gente que tem em São Mateus do Maranhão com o nome de João (até parece coisa do Garrincha, que chamava todos os jogadores adversários, de João), analisa Hidramix, que faz questão de citar alguns:

“Temos o João Cabelo Duro, João da Bomba, João Tabajaras, , João do Rádio, João de Deus do Passarinho, João Piaba, João Andrade, João Careca, João da Mata, João Margarida, João da Tripa, João das Redes, João Sinoca (o homem que não gosta de fofoca), João Bermuda, João Matão, João do Coco (que depois do Collor, não bota mais dinheiro em banco e nem vota pra ninguém), João Enrolão, João Aboiador...”

Agora, diz Hidramix, se divulgarem que morreu o soldador, o proprietário da Oficina e Bocrracharia Hidramix - o criador de nomes; o inventor de máquinas etc, aí você vai ver a repercussão que terá na cidade, onde todos vão querer saber quem é esse defunto famoso chamado Sol-hidramix Riosraiosparaíso Diforças Hahlmeixexas Hinfinito.

Sua esposa, a dona Maria Deuzamar, que aliás, já está sendo chamada de dona “Hahlmeixexas” (devido o sobrenome famoso do marido), falou das vantagens destes nomes diferentes; nomes exóticos, porque, além de não serem repetidos, evita de você “esbarrar no SPC” (Serviço de Proteção ao Crédito), devido os homônimos.

O cidadão João de Deus da Silva tem vários motivos para justificar sua atitude de querer mudar de nome. Ele diz que veio ao mundo sem pedir pra nascer - não foi programado - porque era de família pobre; foi criado no interior comendo papa de mandioca, bolo de macaxeira, ficando exposto a todo tipo de perseguição e problemas que enfrenta o homem do campo como mordida de cobra, picada de muriçoca, queda de jumento etc.

Seu maior sonho, diz Hidramix Hinfinito, era estudar para ter uma vida mais digna; ser um engenheiro mecânico, ser um inventor; criar “coisas” que ajudassem a diminuir o sofrimento da humanidade.

Tem um assunto que Hidramix não “engole” muito bem, que lhe deixa um pouco confuso e um tanto revoltado, que é quando fala “dos desencontros entre o rico e o pobre” (desigualdades sociais do nosso país), porque segundo ele, o pobre vem para a cidade tentar viver melhor, e quando chega, continua o “diabo” da perseguição: é aluguel, é imposto, é carestia (inflação), não sai da caderneta do fiado e às vezes ainda é obrigado a votar em quem não quer. Tudo isto, com direito à morte. E depois, se não tiver procedido de acordo com as leis divinas - ainda vai pro inferno, sem direito a aviso prévio e muito menos indenização.


Esta história continuará no próximo domingo.


Obs.: Esta matéria foi publicada no jornal O Estado do Maranhão; veiculada na TV Mirante, no jornal Hoje e no programa da Ana Maria Braga, ambos da TV Globo. Mereceu também, uma crônica do ex-presidente e membro da Academia Brasileira de Letras, José Sarney, em sua coluna semanal que é publicada na Folha de São Paulo e no jornal O Estado do Maranhão.


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