Obras Mais Asfalto

24 de outubro de 2009

Contos de Nelin Vieira (novidades do BLOG)

Olá! A partir da hoje, irei publicar os contos de Nelin Vieira (foto), nascido aqui em São Mateus do Maranhão, jornalista, publicitário, contista, sindicalista, escreve na revista Almanarque do Jornal Pequeno e é um orgulho para nossa cidade por ter um filho de tão grande renome e pra mim como amigo.
A idéia é publicar os contos aos fins de semana, para que você, depois de uma longa semana, possa ter o prazer de ler e conhecer um pouco mais dos seus escritos.


CARTA DA SOCIÓLOGA RUSSA AO CANTOR ROBERTO CARLOS


Morei na pensão de dona Inês, na rua 7 de setembro, 224, centro, em São Luís (MA), de 10 de junho de 1983 a 1º de junho de 1987, e a nossa chefe de cozinha era a senhorita ALMERINDA ALVES DA COSTA, brasileira, solteira, doméstica, natural da cidade de Guadalupe - Piauí, nascida em 15 de março de 1953, batizada, somente aos 33 anos de idade (ela mesma escolheu seus padrinhos), conhecida também como socióloga russa Almerinda Sacarov Aragão (uma alusão à esposa do dissidente soviético Andrey Sacarov, prêmio Nobel da Paz em 1976 e à médica comunista Maria Aragão, nossa conterrânea), nome este, dado pelo colega de quarto, Simeão Pereira e Silva, hoje juiz de Direito em Presidente Dutra-MA, ao perceber a sua desenvoltura em apaziguar os conflitos que surgiam na pensão – principalmente quando eram com as meninas - e também, pela sua inclinação para o lado político, social e cultural.

A socióloga russa Almerinda Sacarov Aragão costumava deixar de lado as suas obrigações domésticas, para oferecer o ombro amigo aos hóspedes quando queriam fazer seus desabafos amorosos, confidências sérias; ouvir conselhos e em muitas das vezes, fazia o papel de mãe para aqueles que ainda não tinham conseguido superar o impacto – que todos nós sofremos – quando saímos da casa dos nossos pais para morar em cidade grande.

E, no dia 23 de dezembro de 1986, ela me chamou, num canto da cozinha e bastante apreensiva (queria que ninguém soubesse), pediu-me que lhe fizesse um grande favor “porque sabia que eu era metido a poeta”, ajudando-lhe a escrever uma carta (muito especial) para Roberto Carlos, seu cantor preferido. Marquei uma entrevista com a socióloga russa, domingo à tarde (antes dos “meninos” e “meninas” chegarem da praia), para que eu pudesse colher as informações necessárias, porque, afinal de contas, nós iríamos escrever uma “missiva” ao Rei da Jovem Guarda, o incomparável, o insubstituível e inesquecível Roberto Carlos Braga.

São Luís (MA), 2 de Janeiro de 1987.

Meu inesquecível e inimitável Roberto Carlos Braga, ídolo maior da juventude brasileira e Rei da Jovem Guarda do Brasil.

Sabendo eu, que uma carta é a continuação de uma presença, sinto-me como se pessoalmente estivesse aí com você, muito satisfeita e agradecida, ao ter tido a oportunidade de assistir mais um dos seus belíssimos “Especiais de Fim de Ano”, apresentado pela Rede Globo de Televisão, no último dia 30 de dezembro do ano 1986.

Meu ídolo Roberto, não sendo eu uma crítica de música e muito menos especialista em programas de televisão (só sei fazer algumas comidas típicas da nossa região, e principalmente “Disco Voador” e “Morte Lenta” (ovo frito e carne moída com abóbora, respectivamente – que o povo aqui na pensão não agüenta mais), permita-me dizer-lhe, que foi um dos melhores especiais produzidos pela Globo nos últimos dez anos, e apresentado por Sua Majestade na televisão brasileira, onde vibrei atentamente com todas as músicas (que são as canções da minha vida e também dos meus amores).

Mas o momento, Robertinho, que mais fiquei emocionada (e olha que eu não sou de andar choromingando pelos cantos, como muitas “beldades” aqui da pensão), foi quando você, com sua a sua voz de veludo, cantava a belíssima música “O Apocalipse”, que é o carro-chefe do seu novo lançamento (1986), que por sinal, é composição sua, em parceira com Erasmo, e a televisão mostrava as imagens das destruições no mundo inteiro (principalmente das queimadas na floresta amazônica), para dar mais ênfase à mensagem da sua canção, e alertar o povo dos perigos que somos passivos - todos os dias.

O seu Nelin (que é meu confidente aqui na pensão), me disse um dia, que tem um escritor argentino, de nome Jorge Luís Borges que falou que “Quando realizamos um sonho, construímos um pedaço de felicidade”, e, muito embora eu não seja assim uma “poesista”, e também não gostar muito de escrever (acho que nasci para ser repórter – porque adoro saber da vida das pessoas, principalmente se for mulher), concordo plenamente com ele. Meu querido Rô (desculpe a intimidade!), sou sua fã desde criança, cresci ouvindo e gostando de suas músicas, e como todo mundo tem um sonho, também tenho o meu, ou melhor: os meus, que carrego até hoje – não digo para sempre - porque quando a gente quer, segundos os mais velhos, nada nessa vida é impossível.

E é por isso meu ídolo Roberto, que acalento esse meu sonho de criança e espero a oportunidade de um dia poder conhecê-lo pessoalmente, abraçá-lo, beijá-lo, acariciá-lo, amassá-lo, tirar uma foto com você e também lhe entregar uma minha. Não sei se irei resistir essa inesquecível emoção. Mas tenho certeza que Deus irá me ajudar para que eu possa viver o momento mais feliz da minha vida ao lado do homem, do cantor, do compositor, e enfim, do meu ídolo de todos os tempos - meu amado Roberto Carlos Braga. Mas como você mesmo diz: “Se chorei ou se sofri, o importante é que ‘emoções’ eu vivi”, ou melhor, irei viver...

Robertinho, “como a verdade de nada tem medo ou vergonha, a não ser de estar escondida”, também não tenho vergonha de dizer-lhe que sou pobre, negra, tenho trinta e três anos de idade, sou empregada doméstica e cursei só até o primário.Uma vez pobre e ganhando salário mínimo, fica muito difícil realizar um segundo sonho que eu tenho – que é possuir uma coleção de suas músicas, gravadas em fita cassete e também uma foto sua, original e autografada com caneta BIC, escrita fina. Porque com esse seu retrato, sei que irei me sentir mais pertinho de você ao olhá-lo todos os dias, antes de levantar-me para minha batalha diária, que começa às 5 horas da manhã e vai até às 11 da noite, isso quando esses “diabos” aqui da pensão (os hóspedes) não cismam de chegar depois das doze – porque além de eu ser a chefe da cozinha, também sou a porteira oficial e outras coisas mais...

Meu grande cantor e compositor Roberto Carlos Braga, uma de suas músicas que eu mais gosto (todas são fan.tás.ti.cas...) é do disco de 1985, “Pelas esquinas da nossa casa”, que tenho o prazer de ouvi-la todos os dias num programa local, na Rádio São Luís, 1430 khz, do Dr. Falcão (que tem uma fazenda em São Mateus - terra do seu Nelin), chamado “Roberto Carlos Especial” que começa às 5 horas da tarde e vai até as 7 da noite. Nesse horário, meu querido, não dou “bolas” pra ninguém, nem para dona Inês que é a dona da pensão e a considero minha mãe de criação.

Robertinho permita-me citar o trecho que eu mais aprecio dessa belíssima canção (que tem tudo a ver comigo...) que é o que diz assim: “Abro a porta sem cuidado / Como todo apaixonado / Vou correndo pra você // E no nosso encontro / Eu passo dos limites / Nesse abraço / deixo tudo acontecer”. Com uma declaração dessa, Roberto, “meu gato !”, qual é a mulher que resiste a um convite seu, feito assim dessa maneira? A Mirian (sua esposa) que me perdoe e vá logo tirando o seu “cavalinho” da chuva, porque se eu encontrar você com essa disposição de “abrir a porta sem cuidado...”, com certeza eu entro e nunca mais vou sair da sua casa, ou melhor: do seu coração.

Meu querido Roberto, como uma grande fã do ídolo maior da Música Popular Brasileira de todos os tempos (que todo o Brasil e o restante do mundo sabem que você é - até dona “Fifi”, que tinha 132 anos, sabia disso ), quero encerrar essa minha calorosa e emocionada carta, comunicando a você o meu último desejo:

Quando eu morrer, não aceito tristeza na minha despedida. Nada de choro e nem cho.ro.rô... Também não quero pessoas de óculos escuros, principalmente se for mulher, porque por trás da escuridão das lentes desses óculos, muitas das vezes, não existe tristeza alguma, só falsidade. E eu detesto pessoas falsas – aqui na pensão tem um monte dessa gente. Bem Robertinho, eu quase saia do sério e também do assunto que eu estava falando para você, mas como diz o seu Nonato, um dos hóspedes mais respeitados da pensão – depois do seu Nelin: “Almerinda, a coisa é muito séria !”.

Como estava dizendo Robertinho, quando eu “bater as botas”, não pediria que as pessoas fizessem assim uma “Festa de Arromba”, como nos bons tempos da Jovem Guarda, mas que no meu velório, e durante todo o trajeto até o cemitério Jardim da Paz, no Maiobão, pegassem o meu gravador (que eu comprei em 10 prestações - pagarei a última este mês) e botassem para tocar só as suas músicas, porque, com certeza, meu ídolo, seria uma viagem tranqüila e quem sabe eu não fosse logo direto pro céu – sem maiores burocracias desse povo lá de cima - que g.o.s.t.a... de botar dificuldades em tudo, principalmente, se o cristão aqui na terra andou saltando algumas folhas da Cartilha Divina.

Pelo que eu saiba, o único pecado que eu tenho, até agora, é ter procurado amar demais. E uma dessas pessoas é você, meu querido Roberto Carlos, e a outra, como diz a música do Ronaldo Adriano: “Nem às paredes confesso”.

Um forte abraço de quem te ama muito. Mil beijos da sua fá número 1, que espera ser compreendida e correspondida por toda a minha vida.

Assino esta carta em três vias (uma pra você, outra pra mim e a última, enviarei para sua mãe, a dona Lady Laura, para ela também ficar sabendo “como é grande o meu amor por você...”.


Autor: Nelin Vieira.

Um comentário:

Jão Paulo disse...

Jônatas parabéns teu blog tá show. Esta sua idéia de publicar estas historia do jornalista é muito bom, temos que valorizar aquilo que é de nossa cidade.
Teu site tá muito bacana, só assim eu me atualizo sobre as noticias daí.