Moto Legal

5 de janeiro de 2009

CONTOS DE NELIN VIEIRA - O CAMELÔ E A SUA NOTA FISCAL

Um amigo nosso, o professor Matias, nos contou que o ano passado esteve no Chile para visitar uma filha sua que estuda naquele país e numa de suas passagens pelo centro comercial de Santiago (a capital), resolveu comprar um determinado objeto na mão de um camelô e, após o pagamento da mercadoria, saiu caminhando normalmente, despreocupado, e, para surpresa sua – que o deixou um pouco espantado –, segundos depois, ele foi abordado pelo vendedor, que bastante preocupado, lhe pediu mil desculpas por não ter lhe entregue a nota fiscal do seu produto no ato da compra.
O professor Matias - que como todos nós brasileiros - não está acostumado com esse negócio de nota fiscal fornecida por camelôs nas ruas de nossas cidades, no momento em que foi “parado” pelo zeloso e responsável comerciante chileno, nos disse que pensou mil coisas naquela hora (que fosse algum amigo seu, ou um mendigo querendo esmola; talvez um desses insistentes vendedores de cartões de crédito, planos de saúde, cartelas premiadas ou até mesmo, compradores de cheques pré-datados; um pastor querendo salvar sua vida, um vendedor de chumbinho para matar rato; alguém querendo ler sua mão, medir sua pressão etc), menos que fosse um camelô, preocupado em lhe entregar um documento, que segundo ele, caso não extraísse a “o boleto”, e fornecesse ao cliente, no outro dia não estaria mais ali negociando.
O Chile é um país do sudoeste da América do Sul, 15,8 milhões de habitantes, fica encravado entre a cordilheira dos Andes e o Oceano pacífico. É detentor da menor taxa de mortalidade infantil da América do Sul, possui o terceiro mais alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da região, tem um sistema de Previdência Social e Privada, bastante equilibrado e pelo que nos contou o professor Matias, por lá, a sonegação de impostos não deva ser tão vergonhosa como aqui no Brasil, uma vez que o camelô ao emitir o boleto (nota fiscal), não só estava contribuindo com o governo do seu país, como também dando uma demonstração de organização em sua atividade, apesar da aparente “informalidade”.
No dia 3 de maio deste ano, andando pela rua grande, na cidade de São Luís, capital do Estado do Maranhão, encostei na barraca de um camelô, de nome Antônio de Pádua Paraguaçu Seabra dos Reis Veloso (era um misto de personagem de José de Alencar, sobrenomes de jurista e economista famosos) que estava vendendo lâmpadas fluorescentes, marca Super Lamp, made in China a 5,00 reais a unidade. Aproveitei a oportunidade e comprei duas lâmpadas de 22W e, após efetuar o pagamento, em tom de brincadeira, perguntei ao senhor Paraguaçu Seabra dos Reis Veloso se aquela mercadoria tinha nota fiscal e garantia. Para surpresa minha ele respondeu o seguinte:
- Doutor, como o senhor sabe, mercadoria com nota fiscal e garantia, são só aquelas que aparecem em comerciais de televisão!.
- Mas, em compensação, doutor, apesar de nós não termos a “nota fiscal” feita de papel, como exige os “homem da lei”, o senhor pode ficar frio e confiar aqui no seu chegado, que a garantia do produto é de primeira!. É de “responsa!”.
- O doutor preste bem atenção o que eu vou lhe dizer:
- O senhor vai levar uma mercadoria “testada” (eu sou o único aqui da rua grande que testo na frente do cliente) e não se preocupe que a “gambiarra” é legal, é autorizada pelos “homem aí da luz”- todos são meu chapa!.
O camelô Paraguaçu, tentando transmitir mais segurança sobre a sua pessoa, seu ponto comercial e seus produtos, fez questão de citar o segredo do sucesso e de sua credibilidade junto aos seus fregueses durante mais 15 anos de atividade na rua grande, utilizando apenas de uma das quatro operações da matemática, que é a de somar, ensinando-me o seguinte:
- Doutor, a coisa que mais dificulta um “cidadão de bem” encontrar o camelô (desonesto) que lhe vendeu alguma mercadoria que não lhe satisfez ou está com defeito, é saber o dia e onde ele se encontra aqui na rua grande, ou em outro ponto da cidade.
- Mas no meu caso, o “parceiro” pode dormir tranqüilo, porque se ele vier da praça Deodoro, ao entrar na rua grande, basta conferir 9 (nove) postes, do lado esquerdo, que eu estou aqui, todos os dias - menos domingo e segunda-feira, que é a minha folga. E, se o “mano” resolver dá um rolé e se arribar vindo da praça João Lisboa, pegando a cabeceira da rua, é só contar 9 (nove) bicos de luz que também vai me encontrar no pé deste poste, ou seja, aqui é o meu ponto zero. Porque 9 + 9 é igual a 18. E 18, noves fora, é igual a zero. Então aqui é o ponto zero – entendeu chefia?
A conversa com o camelô Paraguaçu Seabra dos Reis Veloso estava bastante agradável, já tínhamos passado de 10 minutos de bate-papo, mas até aquele momento ele ainda não havia dado sinais concretos de que a sua mercadoria, realmente, tinha garantia. Já quase me despedindo, lhe perguntei que segurança eu teria das duas lâmpadas que comprei em sua mão, ou melhor, no seu estabelecimento, como ele mesmo gostava de repetir constantemente (era só uma caixa de papelão, cheia de lâmpadas).
Como havia mais pessoas ao redor do seu “estabelecimento” ( a caixa de papelão), ouvindo a nossa conversa e, com certeza, interessadas em adquirir as lâmpadas made in China, o camelô Paraguaçu apressou-se um pouco e disse o seguinte:
- O meu doutor ao comprar duas lâmpadas em minha mão, já botou o pé dentro da garantia, porque, quando adquire só uma, o cliente não é beneficiado. Afinal de contas, o nobre cidadão sabe, que quem tem um, não tem nenhum – ou melhor: nenhuma lâmpada. E me fez a seguinte recomendação:
- O meu branco vai me fazer um grande favor: ao chegar em casa, tire a lâmpada da caixa, anote a data da compra (só vale se for na tampinha que serve para fechar a embalagem e com caneta Bic escrita fina, cor preta) e guarde por 3 (três) meses. Se nesse período houver algum problema, pode trazer a lâmpada e a caixa com a tampa que eu troco a mercadoria para o meu “brothder”, mas pelo amor de Deus, não me mande ninguém efetuar essa transação em seu lugar, porque o nosso sistema de garantia não aceita procuração e nem subestabelecimento.
- E outra coisa doutor: venha com a mesma roupa que estava no dia da compra, e se possível, no mesmo horário. Para o “papito” ter uma idéia, na minha mente (que funciona como a uma caixa registradora) a cor de sua roupa e o horário da compra são a minha segurança; fica registrado no meu imaginário, na minha mente, no meu sentido, como se fosse a segunda via de sua nota fiscal. É o meu chip.
- O doutor pode ficar tranqüilo que tanto as lâmpadas, como o nosso sistema inovador de garantia são de “responsa”, prova disso, é que nunca demos trabalho aos homemda lei.
- Boa sorte, doutor!
- E boa memória – também!

Nelin Vieira – filho de São Mateus, sindicalista, publicitário e jornalista. Escreve na revista Almanaque JP Turismo.
E-mail: nelinvieira@superig.com.br

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